Um mês que valeu por 100

Hoje completa-se um mês daquele 24 de janeiro, uma tarde chuvosa de uma terça-feira, onde seguimos viagem após um dia agitado e corrido, saindo da rodoviária de Porto Alegre rumo ao sul do estado. Depois de toda a euforia do retorno à terra que deixamos ao ir para a Europa, dois anos e meio antes, seguimos entusiasmados rumo ao desconhecido. A única coisa que eu sabia sobre o nosso destino, era que se tratava de uma fazenda de permacultura, localizada em um pequeno município próximo a Tapes. Nas negociações para a nossa chegada, desde o mês anterior, eu já tinha me identificado com o lugar pela descrição da filosofia e das atividades que ali se desenvolviam. Mas era preciso ver na prática, conhecer o lugar e as pessoas para ver se realmente seria o lugar onde finalmente poderíamos aportar, depois de quase dois anos sem um lar.

Paisagens ao redor da Chácara
Após duas horas de viagem o ônibus finalmente adentra uma região de colinas verdejantes que imediatamente me remeteu ao Cantão de Jura, na Suíça, lugar onde estávamos um ano antes. Passamos a cidade mais próxima e seguimos por estradas de terra sinuosas, entre florestas de eucaliptos e pequenas pontes de madeira sobre riachos que descem dos cerros ao redor. Uma paisagem bucólica e envolvente. “Estou na Suíça”, pensei com o coração cheio de entusiasmo por aquele novo recomeço. Descemos em frente à fazenda e quem nos recebe é um simpático suíço, que nos faz sentir em casa já nos primeiros momentos. O quarto que nos espera está decorado com alecrins colhidos no jardim da chácara. Além do suíço e seus dois filhos, uma menina de 7 anos e um menino de 2, há na casa um rapaz da Itália e uma moça do Chile. 

Em poucos dias nos integramos organicamente ao funcionamento do lugar, às pessoas e ao dia a dia. Ali encontramos muito mais que um lar: encontramos acolhimento, compreensão, reconhecimento. Um lugar onde nos sentimos bem vindos, onde podemos fazer parte de um todo, por um bem maior, e onde podemos evoluir individual e coletivamente. Já na primeira semana tivemos a comemoração do aniversário do Dimitri, que naquele primeiro fim de semana já tinha feito amizade com o diretor da escola onde ele estudará. Este novo amigo tem uma moto, o que proporcionou ao Dimi a felicidade de dar umas voltas pela região. Depois, o bolo compartilhado com os amigos, a alegria estampada no olhar e no sorriso dos meus filhos. 


Ainda nos primeiros dias já tive a minha primeira experiência culinária gratificante: aprendi a fazer uma geleia de uva, que fez sucesso entre todos. Na segunda semana, a chegada de novos voluntários: primeiro uma moça surfista, com quem a troca foi muito profunda, depois uma outra com duas filhas adolescentes, todas da Argentina. O segundo fim de semana seria bastante intenso. No sábado, uma grande integração de todos, o trabalho em equipe na produção de pão e granola (eu adorei aprender a fazer granola!) para um evento numa fazenda vizinha. No evento, mais conexões, gente de todos os lugares, muita música, uma ciranda que me arrepiou a alma, observação das constelações, e o encontro com uma paulista que vive em Porto Alegre, minha xará, a primeira Grazi que eu conhecia pessoalmente e com quem tive uma forte ligação, pois além do nome, muitas histórias e trajetórias nos interligam. 


No domingo fomos em um grupo de 8 pessoas para uma cachoeira da região. Um lugar quase mágico, com lindas paisagens e uma enorme queda d’água cristalina e refrescante. Ali me senti parte de uma grande família, acolhida e acolhendo com muito amor. Após dois sustos de quase afogamentos, por eu tentar atravessar o poço da cachoeira com as crianças, fui socorrida e recebi uma lição prática de natação. Ou seja, depois de 36 anos sem saber nadar, eu finalmente aprendi, e a euforia por isso era enorme. Como uma criança que acaba de aprender a andar e já quer sair correndo, eu nadava de um lado para o outro todo o tempo, feliz da vida e muito grata à minha "instrutora", Verônica, que com certeza estará sempre em meu coração, por esse momento e por todos os outros que compartilhamos. Ainda naquele domingo, nos conectaríamos ainda mais, fechando o dia com uma grande fogueira, danças circulares, conversas, cantorias e mais danças populares. Momentos de pura celebração da vida.


A semana seguinte seguiria intensa e ainda mais integrada. Partidas e chegadas. Enquanto alguns voluntários deixavam a fazenda após alguns dias, eu ia tendo a certeza que ficaria por um bom tempo. Passo as semanas ajudando no funcionamento da casa, cozinhando para todos, o que me enche de satisfação, pois cozinhar para pessoas com quem compartilhamos a vida, alimentar o próximo, é extremamente gratificante, especialmente quando podemos colher muitos dos ingredientes em nosso próprio terreno.


No meio da semana, fazemos uma visita ao pequeno bar da localidade. Dimi está enturmado com a filha de uma vizinha querida e, tanto ele quanto a Layla, já estão tão integrados à comunidade, que vou ganhando também tempo e espaço para mim, o que me faz muito bem, depois de tantos meses sendo só nós três, em uma situação totalmente vulnerável. Nessa ida ao bar, muitas conversas e muito do que mais amo fazer: dançar. Um guri, excelente dançarino, me conduz pela pista de bocha quase toda a noite.

O terceiro fim de semana começaria com um eclipse lunar e um ritual para a lua cheia em volta da fogueira, onde me senti extremamente envolvida, evocando e dançando para Deméter, deusa da terra. Naquele momento senti uma conexão profunda com o universo e entrei em uma espécie de transe, algo que há muito tempo não vivenciava, colocando em prática a minha pequena fama de "bruxa". Ver todos os presentes também desfrutando daquele momento, fazia sentir-me ainda mais completa.

Uma fogueira para celebrar a lua cheia
No sábado receberíamos a visita de um vizinho com um de seus voluntários, um rapaz português e seu saxofone. O Dimi já estava enturmado, pois já tinha tocado aquele sax na nossa visita à fazenda na semana anterior. E passarmos a tarde a compartilhar momentos musicais, cantorias e instrumentos. À noite nos encontraríamos todos novamente no bar, para celebrar o aniversário de uma das voluntárias. As crianças brincando felizes, enquanto eu viajava em uma profunda conversa, com o Daniel, o saxofonista português, que coincidentemente tinha vindo de Portugal no mesmo mês que nós. Matei as saudades do sotaque da terrinha e conversamos por horas a fio sobre lá e sobre cá, sobre planos, sobre sonhos, em uma linda conexão onde o tempo parecia parar...

Dimi e Dani, dá uma bela dupla...
No domingo receberíamos outro vizinho querido, com quem eu já tinha tido o prazer de fazer uma viagem a Porto Alegre, e compartilhamos todos um churrasco tipicamente gaúcho. E as crianças ainda se divertindo com os amigos da vizinhança a andar de cavalo. Mais trocas, mais despedidas e aquela gratidão por conhecer e conviver, mesmo que por pouco tempo, com pessoas tão especiais.

Layla faceira no cavalo
Cada dia que ia passando eu ia mais e mais me completando, me encontrando e me sentindo parte de algo maior. Cada vez mais me conectando com o ambiente, tomando banhos de chuva, pisando na terra, apreciando a beleza do pôr do sol. Os dias passam em duas frequências distintas: muito rápidos, de tão intensos que parecem meses inteiros, e ao mesmo tempo lentos, naquela lentidão gostosa, por serem aproveitados em cada minuto que os preenchem. Uma vida plena e completa, praticamente offline, mas conectada com o que realmente importa: a natureza, o próximo e a nós mesmos.

Na terceira semana eu me envolveria um pouco com a compostagem, um contato gratificante com a terra. Mais despedidas emocionadas, mais chegadas. Essa rotatividade de pessoas sempre acrescentando tanto, como se cada um me deixasse um pedacinho de si e levasse um pedacinho de mim.

Uma turma que deixa saudades
No fim de semana mais um momento de celebração, dessa vez sendo nós a visitar nosso querido vizinho, Antonio Primo, aquele que o Dimi ganhou como avô emprestado. Muita música, muita alegria. No fim do dia saio com um amigo para buscarmos o leite e o calor intenso me faz pedir por um banho de chuva. A paisagem se transforma ferozmente, de um céu rosado e folhas paradas, um manto cinza chumbo revolto encobre o céu e a água vem com força, lavando os campos, os nossos corpos e as nossas almas. O vento feroz chacoalha as árvores e temos que nos segurar um ao outro para que não caiamos ao chão, ou saiamos voando... Um verdadeiro espetáculo da mãe natureza, mostrando sua força, força essa que eu admiro e respeito. O domingo, um dia preguiçoso, encerramos com uma sessão de cinema, assistindo todos a um filme brasileiro, Aquarius.

Na segunda, mais conexões, participo de reuniões na cidade e vou me conectando cada vez mais com o lugar, as pessoas e os projetos que podemos desenvolver por aqui. E eu que tinha ficado numa abstenção da coletividade por alguns anos, depois de tantas andanças mundo afora, me vejo novamente envolvida em projetos coletivos, apoiando o desenvolvimento das ideias, praticando a minha acabativa e sentindo o meu coração feliz e em paz. Vou sentindo essa conexão com o entorno e e sabendo que, mesmo que a vida me leve ainda a muitos outros lugares, eu estou no momento exatamente onde tinha que estar.

Continuo sendo intensa demais para as superfícies e aqui posso viver com toda essa intensidade, pegando carona nos corações de quem vem e vai. Porque se um mês comportou tantas experiências, o ano com certeza comportará toda a vastidão que alimenta minha alma...

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SOBRE A AUTORA

Ceyron Louis

Criada no Rio, gaúcha de coração e cidadã do mundo, Grazi Calazans é quase 1001 utilidades: produtora cultural, percussionista, webmaster, videasta, fotógrafa, escritora, artista de rua e o que mais lhe apetecer. Adora viajar com os filhos e é nômade por natureza, afinal quem cria raiz é árvore!

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